...que o dia possa ser "branco e azul" .... com leveza...
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
“Oh, um escritor devia ser capaz de falar sobre tudo o que é importante”, disse Necip teimosamente. “Se eu fosse um escritor, iria querer falar sobre todas as coisas sobre as quais as pessoas não falam. Você não pode me dizer tudo, só desta vez?” “Então pergunte.” “Há uma coisa que todos queremos na vida, não é?” “É verdade.” “Então, você pode me dizer o que é?” Ka sorriu e não disse nada.
Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.
(Nietzsche)
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Corroendo As grandes escadas Da minha alma. Água. Como te chamas? Tempo.
Vívida antes Revestida de laca Minha alma tosca Se desfazendo. Como te chamas? Tempo.
Águas corroendo Caras, coração Todas as cordas do sentimento Como te chamas? Tempo.
Irreconhecível Me procuro lenta Nos teus escuros. Como te chamas, breu? Tempo.
(Hilda Hilst)
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
“Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo?”
(Caio Fernando de Abreu)
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.
(José Saramago)
domingo, 2 de outubro de 2011
“Sei que todos, algum dia, acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada:vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso.”