terça-feira, 8 de abril de 2008

OUTONO

Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…

(Charneca em Flor Florbela Espanca, 1894-1930, Portugal)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Para um final de segunda-feira ...

Pedaço de Mim
(Chico Buarque )

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

domingo, 6 de abril de 2008

Um pouco mais de poesia e de música

Penso em Ti
Jorge Vercilo

Eu queria não sentir essa saudade
Que me faz perder o sono e querer mais,
Eu queria segurança e liberdade
Mas agora só contigo eu fico em paz,
É a mente que anuncia quando o coração nos trai
Abre as asas, alça vôo, voa, vai,
Minha alma se liberta cada vez que eu penso em ti
Vai no fundo da saudade e me traz,
esses olhos que eu não esqueço nunca mais
Penso em ti
Se eu for lembrar de mim eu vou pensar em ti
Penso em ti
a cada pôr do sol que eu vivo sem poder te ver
Penso em ti
é só deitar na cama e a chama clama-te
Penso em ti
até querendo te esquecer
Eu queria não sentir essa saudade
Que me faz perder o sono e te querer mais,
Eu queria segurança e liberdade
Mas agora só contigo eu fico em paz,
É a mente que anuncia quando o coração nos trai
Abre as asas, alça vôo, voa, vai,
Minha alma se liberta cada vez que eu penso em ti
Vai no fundo da saudade e me traz,
esses olhos que eu não esqueço nunca mais
Penso em ti
no dia a dia, no meio da rua eu penso em ti
Penso em ti
na correria de Copacabana, mesmo ali
Penso em tipassando pela tua esquina eu penso em ti
Penso em ti
andando pela praia as ondas vão bater em mim
Penso em ti
é só pegar o violão e eu penso em ti
Penso em ti
e quando você dorme
Penso em ti
Se eu for lembrar de mim eu vou pensar em ti
Penso em ti
a cada pôr do sol que eu vivo sem poder te ver.

Um pouco de Chico Buarque e Tom Jobim

Eu te amo
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica como que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

Tempo

O tempo traz
O tempo tira
O tempo falta
O tempo vigora
O tempo voa
O tempo não passa
O tempo é a favor ou contra
conforme a hora. (Martha Medeiros)

sábado, 5 de abril de 2008

Neruda para uma manhã de sábado


É a manhã cheia de tempestade
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens
que o vento sacode com viageiras mãos.
Inumerável coração do vento
pulsando sobre o nosso silêncio apaixonado.
Zumbindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva em rápido roubo a ramaria
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que a derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Despedaça-se e submerge o seu volume de beijos combatido na porta do vento do verão

(Pablo Neruda)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Entardecer


ENTARDECER
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele!
Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores, E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...