terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Olhos ... fitos...


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Folha por folha


Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.
(Pablo Neruda)

domingo, 10 de janeiro de 2010



E a vida, como viola desonesta,
Viola a morte do ardor, e se dedilha...
Fraca.

(Mário de Andrade)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sem leitura ... sem poesia...

É como se se negassem à água,
à respiração,
ao sabor das frutas.

(Jorge Luís Borges)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Amanhecer na lembrança

Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

(Helena Kolody)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Monotonia

É segundo por segundo

Que vai o tempo medindo

Todas as coisas do mundo

Num só tic-tac, em suma,

Há tanta monotonia

Que até a felicidade,

Como goteira num balde,

Cansa, aborrece, enfastia…

E a própria dor – quem diria?-

A própria dor acostuma.

E vão se revezando, assim,

Dia e noite, sol e bruma…

E isto afinal não cansa?

Já não há gosto e desgosto

Quando é prevista a mudança.

Ai que vida tão comprida…

Se não houvesse a morte, Maria,

Eu me matava!

(Mário Quintana)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010 regido por Iemanjá


lemanjá é dona Janaína que vem
Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor

Para ouvir lemanjá
A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Do que o fim do mar

(Vinícios de Moraes)