domingo, 19 de setembro de 2010

Escutando o mar...


Depois que descobri
que as palavras enviadas pelo vento
tem mais força...
Guardo todas...

(Caio Fernando de Abreu)

sábado, 18 de setembro de 2010

Por certo...

"Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia."

(João Guimarães Rosa)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Último poema



Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

(Manoel Bandeira)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Ontem choveu no futuro


Ontem choveu no futuro.
Águas molharam meus pejos
Meus apetrechos de dormir
Meu vasilhame de comer.
Vogo no alto da enchente à imagem de uma rolha.
Minha canoa é leve como um selo.
Estas águas não têm lado de lá.
Daqui só enxergo a fronteira do céu.
(Um urubu fez precisão em mim?)
Estou anivelado com a copa das árvores.
Pacus comem frutas de carandá nos cachos.

(Manoel de Barros)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Se eu...



Se eu me sentir sono,
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

De cada dia

De cada dia arrancar das coisas, com as unhas, uma modesta alegria;

em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã.

(Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Continuar...

Substituímos expressões fatais como “não resistirei”

por outras mais mansas,

como “sei que vai passar”.

Esse é o nosso jeito de continuar.

(Caio Fernando Abreu)