sábado, 11 de fevereiro de 2012

Agora...



Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço.
Vou amassá-la numa bola apertada.
Vou levar minha angústia e depositá-la nas raízes sob as faias.
Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos.
Não me encontrarão.
Morrerei lá.


(Virginia Woolf)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

é tempo de marear...



Despedida


Adeus,

que é tempo de marear!

Por que procuram pelos olhos meus

rastros de choro,

direções de olhar?

Quem fala em praias de cristal e de ouro,

abrindo estrelas nos aléns do mar?

Quem pensa num desembarcadouro?

- É hora, apenas, de marear.

Quem chama o sol?

Mas quem procura o vento?

e âncora? e bússola? e rumo e lugar?

Quem levanta do esquecimento

esses fantasmas de perguntar?

Lenço de adeuses já perdi...

Por onde?

- na terra, andando, e só de tanto andar...

Não faz mal. Que ninguém responde

a um lenço movido no ar...

Perdi meu lenço e meu passaporte

- senhas inúteis de ir e chegar.

Quem lembra a fala da ausência

num mundo sem correspondência?

Viajante da sorte na barca da sorte,

sem vida nem morte...

Adeus,

que é tempo de marear!


(Cecília Meireles)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

e transitória insônia...



Catacumbas


Somos argila, noite

onde os dedos se afundam,

hemorragia de espantoso silêncio

nas galerias do corpo.


O resto,

é pura perda

e transitória insônia.


(Hélio Pelegrino)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Catar os cacos...


Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto..............- como se fosse flor.
Catar os restos e ossos
da utopia..............como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculos
e aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada concha da mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo.............- do dia cão.
Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao ventos
e pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionísio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado.............- como era antes.
Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça?
..........Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção......
Cacos de mim.....
Cacos do não.....
Cacos do sim.....
Cacos do antes.....
Cacos do fim.
Não é dentro......
nem fora
embora seja dentro e fora.....
no nunca e a toda hora
que violento....o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012



(e eu que achei que tinha 'muito' para poder compartilhar - escuto que eu não tenho nada para poder dar...)


perder o olhar pode ser uma poesia

uma nostalgia do futuro

sento e o vento que balança...

o trigo com delicadeza

é o mesmo que traz

os temporais

saudades demais

do que nunca

se teve


(Cáh Morandi)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Que seja doce...


Te desejo uma fé enorme.

Em qualquer coisa, não importa o quê.

Desejo esperanças novinhas em folha, todos os dias.


(Caio Fernando de Abreu)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

(Fernando Pessoa)