O poeta e o poema
Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real do que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros - num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma
- duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio...Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
Alphonsus Guimaraens Filho
quinta-feira, 27 de março de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Os problemas...
"O problema
é quando penso em todos os problemas ao mesmo tempo. A vontade é morrer. Sumir.
Enlouquecer. Todos os problemas falando ao mesmo tempo e não me escuto mais. Os
problemas nunca desaparecem, só que eles não podem existir mais do que você.
Não podem viver em bando. Disperse a multidão dos problemas. Não deixe que um
problema se torne amigo de um novo problema. Fale com eles sempre
individualmente. Se você vive reclamando ou criticando, sua casa está cheia de
problemas. Reclamar é quando o problema fala por você. Criticar é quando você
fala pelo problema. O certo é pensar num problema de cada vez e ir resolvendo.
E ir abrindo a porta para se despedir dele. Depois que um problema sai, outro
problema entra. Problema é visita."
[Fabrício
Carpinejar]
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Fabrício Carpinejar
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Talvez
Talvez eu seja apenas mais
um talvez, tentando ser certeza. Tentando ser para sempre, e parando sempre
pela metade. (Caio Fernando Abreu)
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Caio Fernando Abreu
domingo, 20 de outubro de 2013
RIO
Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.
(Vinícius de Moraes)
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Vinicius de Moraes; Imagem Cig Harvey
domingo, 15 de setembro de 2013
A rendeira
Na teia da manhã que se desvela
a rendeira compõe seu labirinto,
movendo sem saber e por instinto
a rede dos instantes numa tela.
Ponto a ponto, paciente, tenta ela
traçar no branco linho mais distinto
a trama de um desenho tão sucinto
como a jornada humana se revela.
Em frente, o mar desfia a eternidade
noutra tela de espuma e esquecimento,
enquanto, entrelaçado, o pensamento
costura sobre o sonho a realidade.
Em que perdida tela mais extrema
foi tecida a rendeira e este poema?
Na teia da manhã que se desvela
a rendeira compõe seu labirinto,
movendo sem saber e por instinto
a rede dos instantes numa tela.
Ponto a ponto, paciente, tenta ela
traçar no branco linho mais distinto
a trama de um desenho tão sucinto
como a jornada humana se revela.
Em frente, o mar desfia a eternidade
noutra tela de espuma e esquecimento,
enquanto, entrelaçado, o pensamento
costura sobre o sonho a realidade.
Em que perdida tela mais extrema
foi tecida a rendeira e este poema?
(Adriano Espínola)
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Adriano Espínola; Imagem Johannes Vermeer
sábado, 15 de junho de 2013
Escrever deve ser uma necessidade, como o mar precisa das tempestades – é a isto que eu chamo de respirar
Por que as
pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso
respondê-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual
possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos
meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria
um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar
e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra
de arte. Só o artista sabe que o mundo é uma criação subjetiva, que é preciso
escolher, selecionar. A obra é a concretização, a encarnação do seu mundo interior.
Ele espera impor sua visão pessoal, partilhá-la com os outros. Se não atinge
esta última finalidade, o verdadeiro artista persiste assim mesmo. Os poucos
momentos de comunhão com o mundo valem esse sofrimento, pois finalmente esse
mundo foi criado para os outros como um legado, como um dom destinado a eles.
Também escrevemos para aprofundar o nosso conhecimento de vida. Para atrair,
encantar e consolar. Escrevemos para acalentar nossos amantes. Para degustar em
dobro a vida: no momento preciso e retrospectivamente, na sua lembrança.
Escrevemos, como Proust, para tornar as coisas eternas e para nos convencermos
de que elas o são. Para podermos transcender nossa vida e alcançarmos o que
existe além dela. Escrevemos para aprender a falar com os outros, para
testemunhar nossa viagem ao labirinto. Para abrir, expandir nosso mundo quando
nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados. Escrevemos como os pássaros
cantam, como os primitivos dançam seus rituais. Se você não respira quando
escreve, não grita, não canta, então não escreva porque sua literatura será
inútil. Quando não escrevo, meu universo se reduz; sinto-me numa prisão. Perco
minha chama, minhas cores. Escrever deve ser uma necessidade, como o mar
precisa das tempestades – é a isto que eu chamo de respirar.
(Anaïs
Nin)
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Anais Nin; Imagem Picasso
terça-feira, 21 de maio de 2013
A vida é para nós o que concebemos nela.
A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, fazendo seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que [se] me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, mal-disposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!
(Fernando Pessoa)
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Fernando Pessoa; Imagem Diego Rivera
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