segunda-feira, 16 de março de 2009

“Somos todos escravos de circunstâncias externas.” (Fernando Pessoa)


Conclusão do papo cult desta manhã:
" a vida é uma gangorra"

Fico pensando...


Ontem recebi um e-mail (sem nome) que, estilo "navalha na carne", revelou o que se deve fazer para deixar que o rumo da vida siga do jeito que sempre foi ... tipo, "se não ajuda, não atrapalha"...
Fico a pensar ...
"Quem diria que viver ia dar nisso?"
(Caio Fernando de Abreu)

domingo, 15 de março de 2009

Cansei de Ilusões

"Tô exausto de construir e demolir fantasias.
Não quero me encantar com ninguém."
Caio Fernando de Abreu

Passagem (dos meses, dos dias) das horas ...



Não sei sentir,
não sei ser humano,
não sei conviver de dentro da alma triste,
com os homens,
meus irmãos na terra.
Não sei ser útil,
mesmo sentindo ser prático,
quotidiano,
nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo ou nada sobrou ou foi pouco,
não sei qual,
e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções,
todos os pensamentos,
todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda a gente.
Mas para toda agente isso foi normal e institivo.
Para mim sempre foi a excepção,
o choque,
a válvula,
o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida,
de tão interessante que é a todos os momentos,
a vida chega a doer,
a enjoar,
a cortar,
a roçar,
a ranger,
a dar vontade de dar pulos,
de ficar no chão,
de sair para fora de todas as casas,
de todas as lógicas,
de todas as sacadas,
e ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.

Álvaro de Campos

sábado, 14 de março de 2009

Convite para o Dia Nacional da Poesia


CONVITE
Poesia é brincar com palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.
Só que bola,
papagaio,
pião de tanto brincar se gastam.
As palavras não: quanto mais se brinca com elas mais novas ficam.
Como a água do rio que é água sempre nova.
Como cada dia que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
José Paulo Paes

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tempo... desmorona e se reconstrói


O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio
ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Carlos Drummond de Andrade

A vida se costura com alguns encontros e com muitas perdas


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Carlos Drummond de Andrade