domingo, 8 de novembro de 2009

A asa arde ...



Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno,
quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado, passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher entre um abismo,
o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde.
Voar, isso não dói.

(Paulo Leminski)

sábado, 7 de novembro de 2009

Solidão

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.

(Chico Buarque)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Brevidades


No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


Para vermos o azul olhamos o céu.
A terra é azul para quem olha do céu.
Azul será uma cor em si ou uma questão de distância?
Ou uma questão de grande nostalgia?
O inalcançável é sempre azul...

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Existir




Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 3 de novembro de 2009





Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
[Como fez Rodin].

(Manoel de Barros)

domingo, 1 de novembro de 2009

Verde



Que bom não ser
Estando acordado!
Também em mim enverdecer
Em folhas dado!

(Fernando Pessoa)