domingo, 14 de junho de 2009

O dia dura menos que um dia...



O dia dura menos que um dia.

O corpo ainda não parou de brincar

E já estão chamando da janela:

É tarde.
Ouço sempre este som: é tarde, tarde.

A noite chega de manhã?

Só existe a noite e seu sereno?
O mundo não é mais, depois das cinco?

É tarde.

A sombra me proíbe.

Amanhã, mesma coisa.

Sempre tarde antes de ser tarde.

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 13 de junho de 2009

Um delicado poema de amor...


Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.
Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho secreto.
(Pablo Neruda)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Formas raras, secretas, duras ...



"Saber que há tudo.

E mover-se em

meio a milhões e milhões de formas

raras, secretas, duras.

Eís ai meu canto"


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Traze-me


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura
dos luares que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!
(Cecília Meireles)

quarta-feira, 10 de junho de 2009


Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas…
Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam
as frutas continuarão a ser doces e boas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

a dor que dói


não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
a dor que dói.

(Ana Cristina César)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Névoas e tristezas



Desce a névoa da montanha,

Desce ou nasce ou não sei que...

Minha alma é a tudo estranha,

Quando vê, vê que não vê.

Mais vale a névoa que a vida...

Desce, ou sobe: enfim, existe.

E eu não sei em que consiste

Ter a emoção por vivida,

E, sem querer, estou triste.


(Fernando Pessoa)